Homem morre após 11 consultas em hospital público

Um homem de 34 anos morreu após ir 11 vezes ao hospital e ser liberado por falta de diagnóstico, no começo de novembro. Os familiares afirmam que o hospital cometeu negligência médica e quer respostas pelo descaso.

 

O conselho de medicina (CRM) diz que irá apurar o caso para averiguar qual foi a causa da morte.

Junior César Pinheiro Carrion começou a passar mal no final de setembro. Acompanhado da mãe, Dalva, Carrion foi à Santa Casa de Guará, que fica a cerca de 430 km de São Paulo, onde foi diagnosticado com um resfriado.

 

Como ele não apresentou melhoras após a primeira consulta, sua mãe conta que o levou no dia 9 de outubro para o Hospital e Maternidade São Jorge, em Ituverava, cidade vizinha. “Ele estava com falta de ar e tossia muito”, lembra Dalva. De acordo com a empregada doméstica, lá, a médica afirmou que ele estava com a gripe H1N1.

 

“Ela disse que não precisava de exames por causa do seu olho clínico”, conta a mãe em entrevista ao UOL. Após algum tempo sem melhora, ela voltou a levá-lo, com febre, ao hospital de Ituverava. “Fizeram exames, que indicaram anemia”, relata.

Homem morre após 11 consultas
Homem morre após 11 consultas

 

Junior e Dalva voltaram mais duas vezes a mesma unidade médica, onde ela teve seus pedidos de internação para acompanhamento recusados. “Ele estava respirando bem mal, chegaram até a passar remédio para ansiedade”.

 

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Dalva decidiu, então, voltar à Santa Casa de Guará, no final de outubro, onde voltou logo depois, no dia 2 de novembro. Segundo ela, a internação do filho foi negada por “ser uma gripe e não caso de urgência”.

 

No dia seguinte, Carrion acordou mais uma vez com falta de ar. “Fui desesperada à Santa Casa. Um outro médico atendeu e decidiu dar encaminhamento: colocou soro, oxigênio. Mas, quando voltei de casa para pegar umas frutas, já havia uma maca esperando por ele”, conta Dalva.

 

De acordo com a mãe, o hospital alegou que o paciente precisava com urgência de um neurologista, que a unidade não tinha, e deveria ser encaminhado ou para Ituverava ou para a Santa Casa de São Joaquim da Barra, cidade também próxima de Guará. Ela escolheu a segunda opção.

 

“Eles o colocaram em uma ambulância muito simples. Ele estava com falta de ar e estava muito quente, não tinha nem ventilador”, acusa Dalva. “Ele falou para mim que não ia conseguir. Quando chegamos lá, desci correndo, mas não teve jeito.”

 

Junior César morreu no local. Segundo a mãe, só em São Joaquim da Barra o filho foi diagnosticado com broncopneumonia bilateral, o que consta no atestado de óbito. “Ele tinha mais de dois litros de água no pulmão”, conta Dalva. “A negligência foi tão grande que eles já chamaram a polícia para registrar as péssimas condições em que ele foi enviado ao hospital.”

 

Além do boletim de ocorrência registrado em São Joaquim da Barra, o corpo de Carrion foi enviado ao Serviço de Verificação de Óbito (SVO) de Ribeirão Preto.

Depois de 11 passagens por diferentes médicos em diferentes hospitais, “fora as idas para inalação”, Dalva acusa os profissionais de saúde de negligência e diz que pretende acionar os órgãos competentes pelo tratamento que seu filho sofreu.

 

“Foi um descaso total passar por tantos médicos e não descobrirem uma pneumonia”, protesta a mãe. “Por que a Santa Casa [de Guará] não transferiu no dia que eu pedi? Eu vi que ele só estava piorando.”

“Ele era meu único filho, minha vida, só morávamos eu e ele”, lamenta a mãe.

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Caso em apuração

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) afirmou ao UOL por meio de nota que abrirá uma investigação para apurar as acusações de negligência da Santa Casa de Guará, que pode durar entre seis meses e dois anos.

“Se, durante a fase de sindicância forem constatados indícios de infração ética, que consiste no descumprimento de algum artigo do Código de Ética Médica, passa-se à segunda fase: a instauração do processo ético-profissional”, explica o órgão. Os médicos passam por julgamento e, caso sejam considerados culpados, as penas podem ir de advertência confidencial em aviso reservado à cassação do exercício profissional.

Procurada pelo UOL, a Santa Casa de Guará não respondeu à solicitação de entrevista até o fechamento da matéria. O hospital abriu uma sindicância para apurar o ocorrido.

A Santa Casa de São Joaquim da Barra comprometeu-se a enviar esclarecimentos, mas a reportagem também não obteve resposta até o fechamento da matéria.

Ao UOL, a administração do Hospital e Maternidade São Jorge afirmou ainda não estar a par do caso e disse que irá consultar a médica responsável pelas consultas para averiguação.

A reportagem procurou o Serviço de Verificação de Óbito de Ribeirão Preto, mas não obteve resposta até o fechamento da matéria.

Fonte: uol